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Redes sociais: meu bem, meu mal

por publicado: 15/09/2020 14h12 última modificação: 15/09/2020 14h12

 

Mais um documentário chegou ao Netflix disposto a despertar o internauta da Matrix. O Dilema das Redes, produção original do serviço de streaming disponível desde o último dia 9, procura mostrar o quão manipuladoras podem ser as mídias sociais que todos nós usamos, como Facebook, Youtube, Twitter, Instagram, Snapchat, Tik Tok e até mesmo o Google, enquanto ferramenta de busca.

O filme reúne alguns dos principais protagonistas do Vale do Silício, muitos deles ex-funcionários dessas e de outras mega empresas pontocom. São designers, engenheiros e executivos que, misturados a médicos, sociólogos e pensadores do mundo moderno, dissecam como se dá a construção da influência que as redes sociais exercem sobre o usuário. E, como é da natureza desse tipo de documentário, o impacto causado pelos bastidores dessa história é pra lá de assustador.

Os depoimentos são alarmistas, mas ser alarmista é fundamental para despertar o Neo que existe em cada um de nós dessa imensa Matrix que é o mundo da mídia social e da maneira como ela “influencia” (ou manipula, no entender dos entrevistados) nossa maneira de ser, de comer, vestir e ver o mundo o que, por consequência, acaba por formar nossa visão sócio-política do ambiente que nos cerca.

Trocando em miúdos, está em jogo a disputa de cada plataforma pela atenção do usuário. Essa atenção vale ouro, ou seja, uma receita bilionária financiada pelos anunciantes que encontram, nesses ambientes virtuais, uma eficiente ferramenta para bons negócios. Afinal, existe todo um mecanismo de coleta de dados que nós, usuários, damos de bom grado ao Facebook, Instagram etc.: quanto tempo passamos na plataforma, o que curtimos, o que gostamos, que tipo de fotos detém mais a nossa atenção… tudo isso é coletado, mensurado, processado e se torna argumento de venda, no entender dos depoimentos.

 “Se você não está pagando pelo produto, então você é o produto”, resume o ex-designer ético do Google, Tristan Harris, um dos entrevistados do filme e especialista em como a tecnologia sequestra as vulnerabilidades psicológicas do ser humano, como ele mesmo se apresentou em um artigo sobre o tema no Medium (você pode lê-lo através do QR Code ao lado).

O que me assombrou deveras em  O Dilema das Redes foi o fato de que esse processo se dá através da inteligência artificial. Não há um ser humano nos guiando pelo que consumimos nas redes, mas sim um mecanismo – segundo os entrevistados, cada vez mais aprimorado – que passa a nos dizer o que fazer. E como estamos cada vez mais imersos nas redes sociais, dá até para dizer que passamos a nos tornar marionetes dessas máquinas, um pesadelo típico da ficção científica. Ou, como compararam no documentário, estamos vivendo a era de O Exterminador do Futuro. Só faltam os robôs com cara de Schwarzenegger aparecem.

O dilema do título do filme vem daí: ao ponto que a tecnologia facilita nossa interação, elas produzem efeitos desastrosos no mundo real. O índice de suicídio entre adolescentes cresceu nos EUA (e, acredito eu, no resto do mundo) baseado na relação de auto-estima que os jovens criam em ambientes como Instagram e Tik Tok. Além disso, o mecanismo é, por sua natureza, um disseminador de fake news justamente por não ter a capacidade de discernir o que é verdade, e o que não é. 

Um exemplo curioso apontado pelo filme é a tese de que a Terra é plana. O que começou como uma teoria da conspiração de meia dúzia de três ou quatro, logo foi ganhando proporções globais a partir do momento em que o algoritmo por trás da inteligência artificial passou a oferecer, sistematicamente, e nas mais diversas plataformas, vídeos e textos de pessoas que alimentam essa tese. Então mesmo que você não procure pelo tema, em algum momento o argumento “a terra é plana, e não redonda” vai aparecer no seu feed. E ao clicar no link, a plataforma irá entender que esse é o tipo de assunto que lhe interessa, e vai começar a lhe bombardear com perfis e links sobre o tema. 

Jaron Lanier, autor de Dez Argumentos Para Você Deletar Agora Suas Redes Sociais, diz que esse poder de persuasão se dá de maneira bem suave, quase imperceptível, e quando você se dá conta, já tem uma opinião formada e, por conseguinte, já está brigando com o parente, ou o vizinho. E o mundo está polarizado como está, adivinhe por quê? Por causa dos colegas do T-800 do velho Schwarza! O Dilema das Redes assusta, sim, mas é necessário.

*coluna publicada originalmente na edição impressa de 15 de setembro de 2020.

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