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Surrealismo Kaufman

por publicado: 16/09/2020 00h01 última modificação: 15/09/2020 13h35


Atenção: este texto contém spoilers do filme ‘Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo’

Dentre os meus cineastas preferidos está Charlie Kaufman. O roteirista de filmes como Adaptação, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Sinédoque, Nova York costuma tirar o espectador da zona de conforto e expectativas fílmicas para apresentar obras não-lineares e geralmente carregadas de metalinguagem. Ao mesmo tempo, procuro manter neutras as minhas expectativas. Espero, ao menos, um longa que vá me fazer passar algumas horas pensando sobre a obra que acabo de assistir. Assisti recentemente Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo, filme original Netflix e mais uma das produções Kaufmanianas difíceis de digerir. 

Em Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo, Jake é um jovem intelectual e bem-sucedido que leva sua namorada para conhecer os sogros numa pequena fazenda do interior. Mas, sim, se você conhece as obras de Charlie Kaufman já deve imaginar que as coisas não são tão simples assim. Baseado no livro de mesmo nome, do autor canadense Iain Reid. A adaptação foi bastante fiel à história do romance, apesar de ter uma linguagem bem mais subjetiva. Enquanto o filme usa de falta de continuidade, linearidade e muitas vezes sentido, a narrativa é mais transparente no livro. Se colocarmos numa ordem cronológica correta, seria mais ou menos isso: um deprimido zelador de uma escola (Jake idoso) fica preso em suas lembranças de uma adolescência que nunca teve, idealizando ele mesmo enquanto um jovem intelectual universitário e sua namorada, uma garota que na vida real ele não havia dado bola numa oportunidade única de trocar telefones.

Em seus devaneios, cria com vivacidade uma realidade onde este primeiro encontro deu certo. Números salvos, conversas longas e o começo do namoro. Tudo isto está contido no filme, porém um elemento mais forte deixa a assinatura Kaufman nesta adaptação: a metalinguagem. Não é de agora que Kaufman usa a metalinguagem de seu processo criativo nos roteiros que escreve. Em Adaptação, Nicolas Cage interpreta o próprio roteirista da trama que vive uma crise por não conseguir adaptar um livro para um longa metragem. Ou ainda em Sinédoque, Nova York, quando o protagonista vivido pelo saudoso Philip Seymour Hoffman enfrenta uma interminável busca criativa quando tenta escrever uma peça. 

Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo fala sobre o desgastante processo criativo, a personificação do esboço de um livro, de um peça ou ainda o roteiro de um filme. A figura da Jovem Mulher, que muda constantemente de nome, penteado, profissão e figurino, é como o fluxo de pensamento ao criar uma personagem. E ela não está apenas ali como objeto na trama, ela assume também papel de sujeito quando atua como a própria consciência de Jake, questionando elementos que não fazem sentido na narrativa. Logo no começo do filme, há um pequeno debate quando os dois estão no carro e passam por uma casa abandonada e um balanço infantil no mesmo quintal. “Você viu isso?”, ela pergunta a Jake, ao passo que prossegue apontando a falta de sentido no cenário. “Por que uma casa abandonada, caindo aos pedaços, teria um conjunto novinho de balanço?”. Irritado, Jake tenta criar desculpas para o porquê daquilo ser possível. Outro exemplo aparece no último ato, quando o casal passa uma estreita estrada a caminho da escola e a namorada ressalta que seria impossível um ônibus escolar passar por lá. Jake, mais uma vez, tenta justificar a improbabilidade. Podemos pensar nela, a jovem moça, como uma revisora. 

O filme é como se eu estivesse escrevendo esse parágrafo aqui da coluna. , fingindo que não existe forma de apagar o texto. apenas segu, apenas seguindo o fluxo do pensamento e começando tudo de novo. É exaustivo escrever desta forma, porque é isso que acontece num processo criativo de qualquer origem d que seja. Erros e acertos fazem parte. Ideias são jogarddas numa everborragia . Assim seria a documentação do processo. Assim é ‘Eu estou pensando em acabar comt tudo”’, uu uma vivência do processo criativo de um do protagonista. Ufa. Percebe que é complicado de entender mas que existe um uma lógica por traaás da ideia? 

O título da obra remete ao cansaço. Em tradução literal, “estou pensando em acabar as coisas”. Acabar com a própria vida? Acabar o namoro? Acabar com o espiral das ideias infinitas e inalcançáveis do que não foi? Processo criativo é assim. Empacamos nas nossas ideias como o cachorro empacou no momento de se secar. Buscamos um gênero, um estilo, passando por terrenos diversos, do suspense ao musical. Nos enchemos de referências e confundimos nossa criação com a criação de outrem. Inclusive, as referências do musical Oklahoma! (criado por Rodgers e Hammerstein em 1943) utilizadas no filme ajudam a entender um pouco mais o roteiro de Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo. Logo no fim, o longa apresenta o zelador, o “verdadeiro” Jake, batalhando contra o jovem Jake, fruto também de sua idealização de uma vida que nunca teve, como na batalha entre os personagens de Curly e Jud no musical de 1943 pelo amor da jovem Laurey. Um artigo excepcional sobre as inúmeras referências de Oklahoma! no filme foi publicado por Kay McGuire no site Screen Rant. Sobre a cena final da produção Netflix, ela expõe o paralelo entre a morte de Jake dentro do carro e a sua realização final (demonstrada no solo no teatro) e aceitação de que ele sempre será Jud, o patético e solitário personagem criado por Rodgers e Hammerstein.

Quando consumimos qualquer forma de arte, esperamos automaticamente por algum tipo de sentido e linearidade -- os que conseguem fugir dessa regra entram num terreno perigoso da genialidade ou fracasso e, principalmente, subjetividade. A quebra desse padrão causa uma imediata estranheza seja pelo bem ou seja pelo mal. Em Estou Pensando em…, nada é o que parece. O filme que brinca com nosso adestramento quando se trata de expectativas cinematográficas. Esperamos por sustos e eles nunca chegam. Esperamos por uma reviravolta e ela nunca vem. Tentamos definir o gênero do filme sem sucesso, nos preocupamos com continuidade (e ela é quase inexistente no longa). 

A atriz Jessie Buckley entrega uma convincente atuação de uma personagem que incorpora várias mulheres idealizadas em uma só; Jake jovem, vivido por Jesse Plemons, nunca passou pelo que acabamos de ver em tela; os pais de Jake, interpretados por Toni Collete e David Thewlis, percorrem uma cíclica viagem pela juventude e velhice e não sabemos ao certo o que é passado, presente ou futuro. Nos impressionamos com a maquiagem e próteses realistas que tornam Toni e David idosos surrados ao passo em que ficamos confusos ao ver uma maquiagem exagerada e claramente falsa de teatro clássico num filme. 

Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo nasce como mais uma inquietante e destemida obra de Charlie Kaufman, entregue ao público de peito aberto e feridas expostas, carregada de subjetividades, tomando o papel de uma das melhores produções do diretor até então. 

*coluna publicada originalmente, em versão reduzida, na edição impressa de 16 de setembro de 2020.

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