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“Morre a nouvelle vague” - Paraibanos analisam a herança de Jean-Luc Godard

por publicado: 14/09/2022 11h09 última modificação: 14/09/2022 11h09
Exibir carrossel de imagens Foto: Reprodução Um dos fundadores do movimento de cinema francês ‘Nouvelle vague’, Godard morreu ontem, aos 91 anos de idade, após recorrer à morte assistida

Um dos fundadores do movimento de cinema francês ‘Nouvelle vague’, Godard morreu ontem, aos 91 anos de idade, após recorrer à morte assistida

por Joel Cavalcanti*

Jean-Luc Godard era tido como o cineasta vivo mais importante do mundo. Segundo familiares informaram ao jornal francês Libération, ele mesmo decidiu dar um fim a esse título ao recorrer ao suicídio assistido por estar muito cansado, aos 91 anos de idade. O franco-suíço era ícone do cinema e um iconoclasta de si mesmo, sempre com uma atitude provocadora às convenções sociais e cinematográficas. Abdicando da fortuna acumulada por seus pais, dedicou-se a modernizar todos os parâmetros da sétima arte e a fazer do audiovisual sua linguagem de expressão filosófica existencialista, que influenciou todas as gerações que surgiram depois dele.

“Não morre apenas o Godard. Morre a nouvelle vague”, sentencia o crítico de cinema pessoense João Batista de Brito. Movimento cinematográfico que teve Godard como um de seus fundadores, a “nova onda” vinha de um contexto de contestação francês que levou aos acontecimentos de Maio de 68 e que estabeleceu processos transgressores de filmar para retratar o amor livre de personagens jovens e à margem da sociedade. Tudo que se precisa para fazer um filme, dizia Godard, era uma “garota e uma arma”.

Mas antes de ser cineasta, ele já fazia cinema com a máquina de escrever enquanto exercia a função de crítico na revista Cahiers Du Cinéma. Essa origem deu a ele um pensamento sobre cinema que se contrapôs à indústria americana e foi responsável por oferecer aos realizadores europeus um propósito estético e de linguagem bastante definido. “Eles eram pensadores do cinema e, mesmo quando se tornaram cineastas, ainda eram muito jovens. Mesmo estreantes, eles tinham uma cabeça teórica”, complementa João Batista, elencando nomes de parceiros importantes de Godard, como François Truffaut, Alain Resnais, Claude Chabrol, Agnès Varda, Jacques Rivette, Chris Marker e Eric Rohmer.

Já em seu primeiro longa-metragem, Godard alcança a glória internacional fazendo em sua estreia com Acossado, um filme de baixo custo e muitas inovações, um grande sucesso de público. A obra com roteiro baseado na história de François Truffaut e com Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo no elenco é até hoje considerada um marco no cinema moderno, apesar de não deixar de pagar tributo ao cinema vindo dos Estados Unidos. “Eles dosaram a paixão pelo cinema clássico com uma concepção de cinema que era deles”, afirma João Batista, citando a influência do cinema noir americano em Acossado. “Essa contribuição é, no mínimo, muito original”, acrescenta.
Outros títulos que ajudam a contar a revolução causada por Godard são Viver a Vida (1962), Banda à parte (1964), O Demônio das Onze Horas (1965), A Chinesa (1967) Uma mulher é uma mulher (1961) e Alphaville (1965). Em todos eles pode-se sentir o gosto da liberdade e do experimento como quando, em 2014, já aos 80 anos, lançou Adeus à Linguagem, filme em 3D estrelado por seu cachorro, Roxy.

No Brasil, os exemplos mais evidentes da presença de Godard estão em filmes do cinema novo e do marginal. “Glauber Rocha teve uma influência muito grande do neorealismo italiano e da nouvelle vague. Godard influenciou todos da década de 1960, que fizeram os chamados ‘cinemas novos’. Aqui, foi apropriada essa ideia de ‘uma câmera na mão e uma ideia na cabeça’, filmando com baixa produção e sem seguir os ditames do cinema hollywoodiano. É Glauber quem vai pegar as ideias mais revolucionárias de Godard”, considera o cineasta paraibano Bertrand Lira.

Mas também é verdade que Glauber e Godard tinham ideias bastante discordantes, o que não impediu que o baiano aparecesse em cena que homenageia o cinema novo em Vento do Leste (1970), filme realizado pelo Grupo Dziga Vertov, coletivo politicamente ativo criado por Godard. Sobre a experiência, Glauber escreveu: “Não sou gaiato para me meter no folclore coletivo dos gigolôs do inesquecível Maio francês”.

Se o tratamento dispensado pelo brasileiro a Godard se dava nesses termos, o Governo Federal fez pior e chegou a censurar Je Vous Salue, Marie (no Brasil, Eu Vos Saúdo, Maria), a mando do presidente José Sarney, seguindo um pedido do Papa João Paulo 2°. Quando foi finalmente liberado, em 1988, no Rio de Janeiro, o filme reuniu menos de 100 pessoas em quatro salas.

Com um estilo que ficou marcado pelo uso de uma câmara mais leve e móvel, filmando sem cenários – ou em cenário natural, Godard criava uma narrativa sem começo, meio e fim. A direção de atores que ele impunha em seus projetos também era completamente diferente. “Em muitos filmes de Godard, a câmara abandona os personagens. Enquanto eles estão conversando, a câmara se afasta deles e faz um passeio pela ambientação e depois retornava a eles, e isso, aparentemente, sem razão alguma. Geralmente os personagens eram jovens e desafiadores dos tabus sociais. Era algo muitas vezes feito para chocar mesmo. Godard tem isso de ter radicalizado e ter permanecido na radicalização até o fim da vida, indiferente a insucessos. Ele foi muito autêntico nesse aspecto”, descreve João Batista de Brito.

Outro elemento de montagem que marca o estilo radical de Godard foi a criação do jump cut. A técnica de edição presente em Acossado corta a cena bruscamente, fazendo o tempo parecer saltar para a frente. Essa estratégia narrativa já está completamente absorvida hoje, inclusive no cinema mainstream.

Ao reinventar o cinema, Godard não se preocupou em ser acessível e muitas vezes sequer compreensível. Ele sempre desafiou o espectador criando filmes que muitas vezes eram sobre sua própria visão de cinema. Em Adeus à Linguagem, por exemplo, ele mistura referências ao pintor abstrato Nicolas de Staël, ao autor modernista americano William Faulkner e ao matemático Laurent Schwartz. Era uma estratégia consciente para fazer quem está assistindo perceber que se trata de uma manipulação dos sentidos e das técnicas e que é preciso analisar tudo criticamente. Se isso afastaria o público, nunca foi uma preocupação de Godard. E para quem deseja iniciar no universo godardiano, João Batista de Brito dá uma dica: “Esqueça as convenções de linguagem e se prepare para experimentar um cinema diferente”.

 

Filmes essenciais:

Acossado.jpg
O primeiro longa do realizador franco-suíço, ‘Acossado’ (1960), com o galã Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg

Alphaville.jpg
Além de dramas e filmes policiais, o diretor também enveredou na ficção científica com ‘Alphaville’ (1965)

Band à part.jpg
n Trio de jovens protagonistas cruzam correndo o Museu do Louvre em cena clássica do filme ‘Banda à parte’ (1964)

*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 14 de setembro de 2022.

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