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Conduzindo o Manguebeat, lançamento do livro ‘Memórias de um motorista de turnês’

Produtor Paulo André Pires lança o livro ‘Memórias de um motorista de turnês’, hoje, em João Pessoa

por publicado: 20/08/2022 00h00 última modificação: 22/08/2022 09h38
Exibir carrossel de imagens Imagem: Reprodução Fundador do Abril Pro Rock conta histórias de quando ele atuava como motorista nas turnês internacionais

Fundador do Abril Pro Rock conta histórias de quando ele atuava como motorista nas turnês internacionais

por Joel Cavalcanti*

 

“O doido do Pink Floyd tá aí na porta”, ouviu o produtor Paulo André Pires, que dormia no sofá do camarim da TV BBC de Londres. O doido em questão era David Gilmour, instrumentista, cantor e compositor na banda inglesa que havia aparecido um pouco depois de Paul Simon (de Simon & Garfunkel) com a intenção de também conhecer Chico Science e a Nação Zumbi. A noite em que a banda pernambucana tocou ‘Meu maracatu pesa uma tonelada’ no programa de Jools Holland dá uma ideia do ponto de vista privilegiado que o escritor de ‘Memórias de um motorista de turnês’ (Cepe, R$ 50, 164 p.) teve para produzir o livro que será lançado hoje em João Pessoa.

O evento gratuito está marcado para às 14h deste sábado, na loja de discos Música Urbana, na Praça Rio Branco, Centro da cidade. Haverá ainda apresentação da ALUXX, projeto paralelo de Arthur Pessoa, da Cabruêra, e dos DJs Evandro Q? e Claudinha Summer. É nesse ambiente que Paulo André Pires, fundador do Abril Pro Rock - um dos mais importantes festivais brasileiros de música -, vai contar histórias de bastidores de uma época em que ele agenciava e atuava como motorista nas turnês internacionais de bandas do Movimento Manguebeat, que ele ajudou a consolidar durante os anos de 1990, quando esteve no epicentro de uma revolução musical que completa três décadas este ano. “Era o bonde da história se aproximando do Recife”, resume Paulo André Pires.

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Fundador do Abril Pro Rock conta histórias de quando ele atuava como motorista nas turnês internacionais

A mesma proximidade que o escritor teve dos fatos é repassada ao leitor através de uma escrita que privilegia a oralidade, com expressões locais e até palavrões, além de um farto material de ilustração. Colecionador desde a infância, o autor mantém fotos raras, flyers e fitas-demos que fazem de suas memorabilias uma parte da história da música brasileira. O que sobressai são narrativas que desenham o universo do rock em seus aspectos intempestivos e improvisados e de figuras igualmente surpreendentes e visionárias. Paulo André começou a publicar esses relatos pessoais no Facebook e Instagram desde 2017, gerando uma repercussão considerável entre os seus seguidores e muitos pedidos para estender aqueles relatos em um livro. Na obra, há um destaque principal para as duas turnês internacionais que Chico Science e Nação Zumbi fizeram.

“Eu comecei a mandar o álbum deles para o mundo todo e as respostas começaram a chegar. O primeiro convite foi em setembro de 1994 e a turnê foi de meados de junho a meados de agosto. A Sony Music havia lavado as mãos para saber se o disco ia vender”, lembra ele. A instabilidade financeira causada pela fraca repercussão local do álbum ‘Da lama ao caos’ faz com que Chico Science decida voltar a trabalhar na Emprel, empresa de processamento de dados do estado de Pernambuco. “Quando chegou o primeiro convite para a turnê, eu sabia que eles estavam ensaiando naquele momento em Rio Doce. Corri direto para lá com a intenção de levantar a moral da galera e contar que íamos tocar na Europa. Depois desse dia, Chico nunca mais ameaçou voltar para a Emprel”.

Paulo André ao volante e Chico Science e Nação Zumbi em 1995 durante a turnê do disco Da Lama ao Caos pela Europa.JPG
Paulo André ao volante e Chico Science e Nação Zumbi, em 1995, durante a turnê do disco ‘Da Lama ao Caos’ pela Europa

Entre as histórias que ele conta, está uma que envolve a banda paraibana Cabruêra, que Paulo André conheceu no São João de Campina Grande, em 1999, dividindo o palco com o grupo Cascabulho, agenciado por ele na época. “Quando acabou o show, eu fui no camarim e perguntei se eles já haviam tocado em Recife. Eles disseram ‘nunca’, e eu convidei eles para o Abril Pro Rock do ano seguinte, e eles foram um dos destaques daquela edição”, relembra o produtor. É nessa mesma época que Silvério Pessoa sai do Cascabulho e a banda perde a participação em shows já marcados na Alemanha, Bélgica, Portugal e Inglaterra. “Foi o pior dia de minha vida profissional”, mas isso abria uma grande oportunidade para a banda paraibana. Por iniciativa de Paulo André, o grupo é substituído pela Cabruêra, que tem assim afirmada a sua projeção internacional da qual usufruem até os dias atuais.

Com histórias que se cruzam com a trajetória de grandes e improváveis nomes da música pop mundial, o que mais orgulha a Paulo André Pires é ter contribuído para colocar o verbete Chico Science em todas as enciclopédias internacionais de música. “Para mim, a herança é poder dizer que eu gerenciei a carreira de Chico Science e que, se a gente não tivesse utilizado essa estratégia de sobrevivência e ignorado as dificuldades do Brasil, se jogando no mundo, certamente o Chico não teria chegado onde chegou”, finaliza o condutor do movimento Manguebeat.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 20 de agosto de 2022.

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