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Há 30 anos, Legião Urbana fazia show único em João Pessoa

Antológica apresentação do grupo de rock aconteceu na Praça do Povo do Espaço Cultural, em João Pessoa

por publicado: 04/09/2022 00h00 última modificação: 05/09/2022 11h34
Exibir carrossel de imagens Foto: Tasso Marcelo/Estadão Conteúdo Grupo de Brasília era formado pelo guitarrista Dado Villa-Lobos (E), o vocalista, compositor e multi-instrumentista Renato Russo (C) e o baterista Marcelo Bonfá (D)

Grupo de Brasília era formado pelo guitarrista Dado Villa-Lobos (E), o vocalista, compositor e multi-instrumentista Renato Russo (C) e o baterista Marcelo Bonfá (D)

por Joel Cavalcanti*

Foi ouvindo uma entrevista de Renato Russo na rádio, em 1992, que a fã Ana Luiza Palmeira ficou sabendo que a agenda de shows da banda Legião Urbana incluiria, pela primeira vez na história, a cidade de João Pessoa. “A Legião vem para cá!”, gritava ela dentro de casa, que na época tinha 21 anos e era fã do grupo desde os 17. A apresentação, que completa exatos 30 anos amanhã, tornou-se lendária e foi a penúltima daquela turnê, precisando ser interrompida três dias depois, de forma precoce e abrupta, devido ao agravamento do quadro de saúde de Renato Russo, que sofria com o alcoolismo e com a descoberta um ano e meio antes de que era soropositivo.

Era uma noite de sábado. Segundo consta em nota divulgada no Jornal A União naquele 5 de setembro, os ingressos da banda “de letras longas e discurso poético”, como fora noticiado, custavam Cr$ 30 mil, que em cotação de hoje e atualizada com os índices de inflação, correspondem a cerca de R$ 75. Nos cinemas, os filmes em cartaz eram a animação da Disney A Bela e a Fera e Tomate verdes fritos. Na política, a crise da vez era causada pelo confisco da poupança dos brasileiros pelo então Governo Collor. E esse contexto econômico e social foi determinante na construção do álbum V, considerado um dos mais melancólicos da Legião Urbana, em um momento em que Renato Russo enfrentava ainda problemas no relacionamento com seu namorado, Robert Scott Hickman.

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Memorabilia de uma fã: autógrafo do Renato Russo
A primeira faixa do quinto álbum foi também a que abriu o show: ‘Love song’, uma cantiga de amor em português arcaico, composta no século 13. V é considerado um trabalho de rock progressivo e tem um ritmo mais lento para representar o tédio e o marasmo pretendidos pelo líder da banda. Renato Russo vestia calça de jeans clara e uma camisa branca, que ele rasga teatralmente com as próprias mãos ainda no início do show, apresentando-se durante quase todo o tempo com parte do peito à mostra. Do palco, ele faz um apelo ao público pessoense: “Vou precisar da ajuda de vocês hoje à noite. Estou muito confuso da cabeça. Essas coisas todas que estão acontecendo no Brasil e a gente realmente não esperava um público tão bonito. Então, se vocês quiserem me ajudar, a gente pode cantar o Hino Nacional brasileiro”, diz ele antes de começar a cantar ‘Carinhoso’, de Pixinguinha. A voz grave e impecável de Renato Russo falha três vezes durante a execução feita à capela.

No repertório escolhido para o show constam canções mais politizadas do álbum V, como ‘Metal contra as nuvens’ – a canção mais longa do grupo –, e ‘O teatro dos vampiros’. Eles tocaram também ‘Vento no Litoral’ e ‘O mundo anda tão complicado’, do mesmo disco. As vendas de V foram muito fracas, não atingindo nem a 500 mil cópias, cinco vezes menos que o disco anterior, As quatro estações. Mas o setlist em João Pessoa incluiu sucessos como ‘Quase sem querer’, ‘Meninos e meninas’, ‘Há tempos’, ‘Pais e filhos’ e ‘Por enquanto’, entre outros. Já a espera de uma década para trazer o show para a Paraíba foi justificada no palco por Renato Russo. “Lá, no eixo Rio-São Paulo, eles não querem saber de João Pessoa. Não querem mesmo. Eles nem conhecem. Eu não conhecia. A gente veio para cá porque, de repente, dessa vez, pintou de a gente vir. A gente não tinha vindo antes porque a gente é meio preguiçoso e porque sempre pintava outras coisas para fazer. Essa é uma das cidades mais lindas que já vi na minha vida”, discursou.

Quem não percebia nada das dificuldades na apresentação era a jovem Ana Luiza Palmeira, agarrada à grade na primeira fileira, de onde passou o show entre o choro de emoção e discussões com os seguranças que mantinham a distância do público para o palco. Ela havia chegado à Praça do Povo às 14h, escondendo-se sob uma das marquises do Espaço Cultural para acompanhar a passagem de som. Antes de ser retirada do local, conseguiu se encontrar com o guitarrista Dado Villa-Lobos, com quem tirou fotos e pegou autógrafos. Mas para ela aquilo não era o suficiente. Assim que o show terminou, um grupo de cerca de 10 pessoas decidiu ir até o Hotel Tambaú, onde todos os integrantes da banda estavam hospedados.

 

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Memorabilia de uma fã: no Hotel Tambaú, o líder da Legião ao lado da paraibana Ana Luiza Palmeira

“Ele estava visivelmente doidão”, lembra a professora Ana Luiza, que chegou a ter acesso à área da piscina naquela madrugada, às 2h, infiltrada por amizades com funcionários. “Renato Russo estava fazendo um barraco na boate do hotel. Foi bem complicado”, acrescenta a fã, que foi mais uma vez recebida cordialmente por Dado, mas sem contato direto com Renato Russo e Marcelo Bonfá. E por isso mesmo, ela não desistiu do seu plano. Todos foram para casa e no dia seguinte, ainda pela manhã, retornaram ao local, para de imediato ver o seu alvo preferencial. A presença dos fãs causou incômodo e os funcionários tentaram retirá-los de lá. Foi quando Renato Russo interveio para evitar a expulsão. “Ele mandou parar aquilo e disse que ficaria com a gente. Renato Russo estava protegendo a gente porque nós não estávamos agindo como fãs loucos. Ele percebeu na gente uma pureza”, acredita Ana Luiza.

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Memorabilia de uma fã: cigarro fumado e autografado por Dado Villa-Lobos e chamada do show no jornal
Com o aumento do número de pessoas no local, Renato Russo leva Ana Luiza para o lado e passa a puxar papo com ela. “Ele começou a conversar comigo sobre árvores, sobre flores. Perguntou qual era a árvore que eu mais gostava”. Nesse momento, ele deixa um autógrafo para Ana Luiza, escrevendo o nome ‘Russo’ e desenhando junto um coração. “Eu fiquei conhecida como a ‘Ana do Renato’, por ter sido a única pessoa a falar reservadamente com ele nesse dia”. Além dessas memórias, a fã guarda consigo ainda o ingresso do show, pôsteres e um cigarro Marlboro assinado por Dado Villa-Lobos. “Eu via Renato Russo como um homem perfeito, com as ideias parecidas com as minhas e criava letras criando com a minha história. Era um Deus para mim”, considera ela, que criou nessa mesma data, em conjunto com o grupo que compareceu ao show, o fã clube Legião Jovem, e está promovendo o show com a banda Metal Contra as Nuvens, às 22h, no After Pub, em João Pessoa. Os ingressos para o tributo custam R$ 25.

Depois do show em João Pessoa, foram apenas mais 11 realizados pela banda pelo Brasil nos anos seguintes, até a morte de Renato Russo, em 11 de outubro de 1996. A banda voltaria com outro vocalista para o mesmo palco do Espaço Cultural, há quatro anos, em 2018. Mas é a antológica apresentação em 1982 que está permanentemente na memória de todo o público ali presente no show, e se insere na história da Legião Urbana como um dos momentos em que Renato Russo procurava se desintoxicar, ser um exemplo para o filho Giuliano, nascido em 1989, e manter o nível criativo do compositor que melhor traduziu os anseios de uma geração jovem e que hoje resiste como memória. Ou como diz a canção escolhida na capital para encerrar o show: “o pra sempre, sempre acaba. Mas nada vai conseguir mudar o que ficou”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 4 de setembro de 2022.

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