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Ingá é tema de mostra em Portugal

Amanhã, João Lobo lançará exposição no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa

por publicado: 31/08/2022 00h00 última modificação: 31/08/2022 11h29
Exibir carrossel de imagens oto: Cacio Murilo/Divulgação Mostra de autoria de Lobo (à dir.) é dividida em três capítulos, ‘Yesterday’, ‘Today’ e ‘Tomorrow’, cada qual contendo 10 fotografias sobre as inscrições rupestres das Itacoatiaras do Ingá, na Paraíba

Mostra de autoria de Lobo (à dir.) é dividida em três capítulos, ‘Yesterday’, ‘Today’ e ‘Tomorrow’, cada qual contendo 10 fotografias sobre as inscrições rupestres das Itacoatiaras do Ingá, na Paraíba

por Guilherme Cabral*

 

O artista visual paraibano João Lobo abrirá amanhã, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa, em Portugal, a exposição ÍNDICE itacoatiara do ingá (assim mesmo, com maiúsculas no começo). A mostra, com curadoria da museóloga Sofia Marçal, é dividida em três capítulos, que se denominam “Yesterday”, “Today” e “Tomorrow”, cada qual contendo 10 fotografias sobre as inscrições rupestres das Itacoatiaras do Ingá (PB), e tem o intuito de celebrar o Bicentenário da Independência do Brasil. A individual permanecerá à visitação do público até o próximo dia 30 e ainda vai ter um catálogo, que será impresso em três idiomas – português, inglês e francês.

Natural do município de Brejo do Cruz, João Lobo reside em Portugal há oito anos e já participou de exposições coletivas, mas esta será sua primeira individual no Velho Continente. “A curadora do museu, Sofia Marçal, me convidou para fazer essa exposição e eu, é claro, aceitei, apesar de ser um projeto antigo, de 2004, mas como o museu é de história natural, houve a concordância”, disse o paraibano, dono de uma carreira de quase 40 anos.

“A exposição é dividida em três capítulos e, no meu entender, fazem um percurso de tempo e espaço sob a ótica artística. Não faço leitura científica e nem documental da pedra, mas puramente artística. São obras retiradas de outra obra de arte, que é a Pedra do Ingá, que mede 24 metros por três metros e é composta por rocha metamórfica coberta por inscrições antigas e está localizada no Sítio Arqueológico das Itacoatiaras, em Ingá”, explicou João Lobo, que mora em Lisboa.

O artista esclareceu o motivo da divisão da exposição. “Para estabelecer com melhor clareza o diálogo, no primeiro capítulo, ‘Yesterday’, faço uso da tecnologia fotográfica analógica, porque as fotos vêm de 2004, então, foi ontem, e que convidam o observador a uma viagem ao passado. É uma série de imagens impressas em materiais diversos, madeira, tela e tecido, com variados formatos, que sugerem uma leitura e as construí com caracteres antigos. São peças montadas em suportes que vão da madeira antiga, molduras mumificadas e molduras da era pombalina, rebuscadas. A madeira, o tecido e o papel dão a ideia do percurso do tempo e do espaço”, disse ele.yesterday2.jpg

“No segundo capítulo, ‘Today’, uso tecnologia analógica e a digital, misturada, que é o apontamento para o capítulo futuro. São peças impressas em papel fotográfico 10 fotografias em tamanhos de 70 x 50 cm, com molduras e paspatur, laqueadas de preto para fornecer elementos de leituras que consolidem o aspecto da atualidade. São colocadas em molduras normais, sem nenhum tipo de adereço. O diferencial desse capítulo é a maneira como faço o recorte, com luzes, angulação da câmera, movimento. Junto a essas duas técnicas eu também faço um percurso da própria técnica da fotografia além da história da pedra. É como se estivesse o hoje da pedra, tendo como diferencial o olhar artístico”, comentou João Lobo.

Já no terceiro bloco, “Tomorrow”, o artista visual usa somente a tecnologia digital. “Há muito movimento, muita caracterização daquele símbolo e imagens que são ideia de tridimensionalidade, fornece a condição da universalidade e motiva o diálogo – passado, presente e futuro – como fator prevalecente da minha expressão criativa. Não estabelece limites; não impõe circunstâncias, mas abre perspectivas de percepção acerca daquelas formas de comunicação que fazem a imaginação do visitante intuir a sua própria concepção. Exceção do primeiro capítulo, em que eu intervi nas imagens dentro do laboratório, nos outros não tem intervenção, mas tem meu conhecimento técnico com a minha forma de trabalhar. Esse terceiro capítulo é de fotografias, algumas obtidas com longo tempo de exposição, impressas em placa de acrílico medindo 70 x 50 cm, com aspectos tridimensionais que têm a intenção de representar o formato futurista. Acho que o futuro vai ser holográfico, e não de objeto”, disse ele.

João Lobo também falou qual o conceito da exposição. Considero que a pedra é um sumário, o índice de uma enciclopédia humana. Cada símbolo é como um capítulo da história: passado, presente e futuro, e faço ligação com a itacoatiara, termo indígena, e com ingá, fonte de água, que se refere à ingazeira, e não à cidade. Pretendo estimular a criação de um discurso no qual os desenhos incrustados na pedra forneçam pistas capitulares de uma escritura que ainda está por se compreender. E, dessa forma, demonstra a pequenez da enciclopédia humana, em que os enigmas da antiguidade podem ser compreensíveis com os recursos criativos da arte e a ousadia inquieta de artistas que reinterpreta-os e, a sua maneira, expressa-os”, apontou o artista visual.today3.jpg

Quanto ao catálogo dessa individual, Lobo informou que a obra conterá textos de autoria da curadora Sofia Marçal; W. J. Solha (artista, escritor e multimídia); Bruna Lobo (pesquisadora e curadora); Nadja Peregrino e Ângela Magalhães (pesquisadoras brasileiras); Sílvio Oliva Drys (artista, curador, Argentina); André Quiroga (escritor e jornalista); Fernando Rosa Dias (pesquisador) e Teresa Palma (artista e pesquisadora), todos de Portugal, além de John Nieto-Phillips (pesquisador, EUA).

Um dos integrantes do catálogo, para o qual escreveu o texto “Nem sempre é do futuro que se saca um adiantamento com que se faça algo novo”, Solha disse considerar extraordinária essa individual de João Lobo. “É a melhor coisa que ele já fez, por ser mais inovador, porque não tem simplesmente a foto, mas também a qualidade que resulta do trabalho com a lente e a química, além de reavivar o interesse pela pedra de Ingá, que anda meio esquecida. É uma deslumbrante série fotográfica, com tal força poética que me remete ao também paraibano Augusto dos Anjos, que parece dar voz ao ainda incógnito ser humano que – não em papel, pergaminho ou papiro, mas na pedra – deixou a marca de sua passagem no planeta”, disse ele, acrescentando que essa exposição ainda o fez lembrar do poema Monólogo de uma sombra, de Augusto dos Anjos, que fala de um “cósmico segredo”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 31 de agosto de 2022.

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