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Tizuka Yamasaki 40 anos depois de ‘Parahyba Mulher Macho’

Cineasta gaúcha reflete sobre uma de suas obras de maior sucesso no cinema e fala da hostilidade com que foi recebida na Paraíba nos anos 1980

por publicado: 30/08/2022 00h00 última modificação: 30/08/2022 11h22
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de Cinema de 
João Pessoa

Neta de imigrantes japoneses, Tizuka retorna à capital paraibana para receber homenagem no Festival Internacional de Cinema de João Pessoa

por Joel Cavalcanti*

 

Era com um filho amamentando no peito e um megafone na mão que a cineasta gaúcha Tizuka Yamasaki comandava uma multidão de figurantes, atores e equipe técnica no filme ‘Parahyba Mulher Macho’. De volta a João Pessoa pela primeira vez, quase 40 anos depois de ter sido mal recebida no estado ao filmar a história da professora e poeta Anayde Beiriz, a diretora relembra, em entrevista exclusiva para o Jornal A União, curiosidades da premiada produção nacional e reavalia a forma como o espaço da mulher tem se transformado no tempo, na telas e por detrás delas.

Quando a realizadora veio para a capital paraibana a fim de conhecer melhor os fatos que culminaram na Revolução de 1930, os entrevistados não olhavam diretamente em seus olhos puxados. Respondiam apenas ao roteirista da obra, um homem, José Joffily. “Naquele momento, a Anayde era uma persona non grata. Ninguém pronunciava o nome dela e tinham um certo desprezo, e eu estava fazendo um filme em que ela era a protagonista desse caos que se originou com a morte de João Pessoa”, relembra Tizuka. E isso não foi uma percepção superficial. A diretora recebeu diretamente a sugestão de que fosse filmar no vizinho estado de Pernambuco devido ao clima hostil causado com a super produção. “A gente fez João Pessoa na cidade de Olinda, misturando com alguma coisa do Recife”, detalha ela.

De certa forma, essa recepção ajudou a diretora a compreender melhor a condição em que Anayde viveu (e que a levou ao suicídio) entre muitos políticos poderosos em sangrenta rivalidade. “Senti na pele parte do que a Anayde sentiu 50 anos antes. Isso, na verdade, colaborou com o meu sentimento do que é ser segregada”, compara a realizadora que, apesar das dificuldades, obteve sucesso de bilheteria nos cinemas, levando prêmios nos festivais de Brasília, Cartagena, Biarritz e Havana.

Sem injustos anacronismos que um olhar criterioso da sociedade atual poderia impor ao analisar hoje ‘Parahyba Mulher Macho’, Tizuka entende que o que foi explorado no filme ainda representa o mais importante dos fatos sociais e que o espírito da obra permanece coerente com quem foi Anayde Beiriz. “Não teria muita diferença”, afirma.

Outro desafio que a cineasta precisou conciliar foi o clima pesado entre Tânia Alves e Cláudio Marzo - intérprete do personagem de João Dantas -, que tinham muitas cenas de amor e sexo juntos ainda a serem filmadas. “Chamei os dois e coloquei isso na mesa: ‘Eu não tenho nada a ver com desavenças pessoais. Vocês estão fazendo um filme de um casal completamente apaixonado e isso tem que estar no filme’”, interveio Tizuka, que teria orientado ainda Tânia Alves a assumir o comando do ato sexual em cena. Na época, a atriz era recorrente em filmes com grande apelo erótico e chegou a ser capa da revista Playboy em dezembro de 1983, o mesmo ano de lançamento de ‘Parahyba Mulher Macho’.

Devido às cenas de sexo, alguns festivais de cinema na Europa chegaram a barrar a inscrição da produção por considerá-la um filme pornográfico. E essa exploração do corpo e do desejo feminino é responsável pela única ressalva que Tizuka faz sobre o tratamento que ela deu à professora e poeta paraibana no filme. “Talvez não colocasse tanta sensualidade assim como a Tânia Alves colocou. Mas, no fundo, correspondia a quem era Anayde Beiriz”, justifica ela. “Essa era a minha grande questão: como colocar a Anayde Beiriz que agisse como uma pessoa normal da época. Minha preocupação era essa medida de as pessoas se sentirem provocadas por alguém muito libertário em todos os sentidos”, complementa a diretora, que afirma não acompanhar mais como a biografia de Anayde vem sendo revisitada em livros, peças e curtas metragens paraibanos sob a luz de uma narrativa feminista.

Tizuka recebeu na noite de ontem uma homenagem por sua trajetória profissional no Festival Internacional de Cinema de João Pessoa, para onde veio com o intuito de testemunhar o acordo de criação da Agência de Cinema e Audiovisual e a João Pessoa Film Comission. O programa do festival, com 12 filmes, oferece uma fotografia do espaço que a mulher possui à frente de produções audiovisuais no mundo. São, ao todo, três curtas e apenas um longa dirigido por elas. “Nos anos 1980, não tínhamos isso. Ainda que algumas mulheres estivessem brigando, não se via isso como uma manifestação pública. Estamos caminhando como deveria ser”.

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Tizuka Yamasaki com o diretor executivo da Funjope, Marcus Alves, durante homenagem, no Mag Shopping; cineasta também participou do acordo de criação da Agência de Cinema e Audiovisual e da João Pessoa Film Comission

A neta de imigrantes japoneses que já dirigiu ‘Gaijin - Os Caminhos da Liberdade’, ‘Lua de Cristal’, ‘O Noviço Rebelde’ e ‘Aparecida: O Milagre’ também aproveita para criticar cotas em editais que garantam um espaço mínimo para filmes realizados por mulheres. “O que é engraçado hoje é que, em alguns editais, ser mulher é um ponto de privilégio. Pessoalmente, eu tenho minhas dúvidas porque eu acho que tem que ir pela competência profissional, e hoje você tem muitas mulheres competentes”, diz ela, que durante a pandemia desenvolveu várias ideias e agora está em fase de negociação para garantir o financiamento de suas futuras produções.

E o ambiente de mercado que o FestincineJP abriga tem dado uma ajuda nesse sentido. “A gente fica ligado em quem você vai procurar para receber seu projeto e quem é que pode ter as mesmas ideias e assim a gente não para de trabalhar”. Um desses projetos que chegaram à mão de Tizuka foi o romance policial ‘Corpos Hackeados’, da paraibana radicada no Recife Andrea Nunes. O enredo, que se passa no Nordeste e conta com reflexões sobre bioética, avanços da medicina e das tecnologias aplicadas para prolongar a vida, chamou a atenção da diretora. “Li esse romance e acho ele muito cinematográfico”, limita-se a dizer a diretora sobre a obra, que explora os limites da corporeidade e as definições do que seja o ser humano com questões existenciais envolvendo a sobrevida.

Nesta volta à Paraíba depois de quatro décadas, Tizuka é só admiração com a diferença na recepção que tem percebido de todos. “Há 40 anos, ninguém poderia imaginar que João Pessoa estivesse nesse papel de vanguarda no audiovisual. E a recepção foi o oposto de 40 anos atrás. Depois que ‘Parahyba Mulher Macho’ saiu, acho que muita gente repensou sobre isso, de como o preconceito e a arrogância só prejudicam a todos”, finaliza.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 30 de agosto de 2022.

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